Idosa desespera pelo fim da diálise, faltam apenas alguns minutos. O cobertor só deixa ver os olhos cansados e os cabelos brancos.
A assistente antecede-me, cumprimenta a velhota de forma automática, enquanto lhe puxa o cobertor e o lençol para baixo. Estremece, não sei se de frio, se da súbita invasão do seu espaço íntimo. Tenho de lhe palpar o cateter. Procedo com todo o cuidado, pela palpação percebo que o trajecto do tubo termina sobre a jugular. Os acessos de um doente renal são os seus mais preciosos bens. Sem eles, a morte será rápida e terrível. A assistente continua a debitar concentrações de sódio, volumes por minuto e tamanhos do dialisado.
A velhota fita o vazio, encolhendo-se. De uma maneira inconsciente, volto a puxar-lhe o cobertor para cima. Sorri-me e esboça-me um obrigado com os lábios.
Afinal, estava com frio.